Ontem eu sentei na sua calçada.
Não faço a mínima ideia do que você fazia uma hora daquelas. Fiquei lá por um bom tempo. Assisti as pessoas na rua, senhoras com os cachorros, o trânsito, o semáforo. Fazia frio. Mas eu estava bem ali.
Na verdade eu não sei muito bem porque eu estava lá, mas me fazia bem, então continuei.
Corri até a padaria próxima, comprei algumas carolinas, um suco de latinha e voltei pra porta da sua casa.
Até que eu estava bem visível, mas pra quem via parecia que eu tinha tocado a campanhia e estava esperando alguém sair da sua casa e abrir. Quem dera, bem que eu queria isso.
O frio apertou. As carolinas acabaram. A latinha esvaziou.
Comecei a mexer no celular. Típico de uma pessoa sozinha que não tem o que fazer, sabe? Fiquei relendo mensagens e algumas que tinham ali eram suas. Comecei a fuçar mais ainda no celular, que nem é tão morderno assim, mas encontrei algumas fotos suas sem querer. Fotos de meses atrás, fotos de quando você me pedia pra registar um sorriso teu. Cheia de pose, rs.
Cansei do celular e comecei e ouvir músicas no viva voz. Ahh, mas eu não sou escandaloso, não ouvia alto!
Aí eu cansei das músicas também. Pensei em como seria bom poder te ver. Eu estava ali tão perto de você que nunca faria ideia do quanto.
Fui perto da campanhia e forcei umas poses. Ensaiei falas: “Oi, com licença, pizzaria!” Mas não sei seria uma boa ideia, ora, não tinha como adivinhar que você tinha pedido pizza. Lembrei da sua fominha que aparece aquela hora.
Me distanciei da calçada na tentiva de simular com a maior perfeição possível algum assunto pra falar com você no interfone.
E as horas foram passando.
Foi então que tive a ideia genial (?) de subir em uma árvore. Escolhi uma especial o mais perto possível do seu quarto, me preparei e comecei a escalada. Que fracasso, mal subo numa bicicleta o que dirá numa árvore. Eu não estava nem aí, queria tentar!
Com muita dificuldade consegui subir e pra minha surpresa consegui ver sua janela.
Consegui ver sua janela.
Consegui ver sua janela.
Consegui ver sua janela.
Naquela hora o miserável do meu celular vibrou e eu quase caí. Maldita mensagem da operadora me lembrando pra recarregá-lo.
Me acomodei aos poucos até me estabilizar.
E aí.
E aí.
Eu te vi e você nem percebeu.
Pela fresta da cortina comecei a te observar. A partir daquele momento não tinha vento que me derrubasse, não tinha força que me fizesse sair dali. Eu só queria te ver mais tempo.
Vi que assistia aquele programa de vídeo-clipes. Cantava as músicas com a TV. Usava a blusinha dos ursinhos nas nuvens.
Foi até a cozinha, preparou algo pra comer e de repente o interfone tocou.
Era um motoboy de pizzaria. Mas raios, como que não ouvi o barulho da moto? Me indignei e só depois reparei que ele havia estacionado bem longe sei lá porque.
“Boa noite, é da pizzaria” anunciou o motoboy, não era a mesma frase mas era uma muito parecida com a que eu havia treinado horas atrás. Teu pai foi buscar no portão.
Vi que desistiu do lanche que havia preparado e aproveitou pra comer a pizza. Concluí que ainda sei dos teus horários e gostos.
Depois de comer, fui para o computador. Você adora vídeos curisosos da internet, conversar com os amigos, mexer em suas fotos.
Me dei conta do tempo que estava lá e percebi que eu já estava bem cansado. Você havia se deitado, a madrugada já havia chegado e o frio tinha apertado ainda mais. Mas eu não queria ir embora. Eu queria te ver.
E então você adormeceu. A janela já estava fechada, mas percebi pelos feixos de luz que a TV estava num fora do ar. Era o sinal. Provavelmente você estava dormindo em cima do controle remoto. Como sempre.
Fiquei feliz por ter ver anoitecer.
Repleto de ematomas, desci da árvore. Encontrei uma sacola plástica na rua, recolhi o saquinho das carolinas, a latinha de suco, joguei na lixeira. E fui embora.
Já não havia ônibus e eu não tinha dinheiro pro táxi.
Fui pra casa caminhando. Transformei 30 minutos em 3 horas.
Mas não tem problema pra quem esperou mais de 20 anos pra encontrar alguém assim como você.