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MUDAMOS!

julho 8, 2011

Pessoal, mudei o endereço do blog, agora acessem:

www.umtravesseiroparadois.wordpress.com

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Brigaaaado =)

 

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Jogados ao Vento

abril 22, 2011

E vemos lá de longe a dança dos pássaros. Eles, que passeiam rasgando o céu, desenhando risos pelas nuvens.
A gente vê daqui, abraçados.
Se mudarmos um pouco a forma de ver as coisas, veremos que os cachorros que passeiam pelo chão nos parecem sorrir também. Somos capazes de ver tudo aquilo que desejamos. A gente prometeu um ao outro construirmos um mundo nosso, totalmente diferente, onde daríamos nomes às cores e os dias teriam a quantidade de hora que quiséssemos.
Se pararmos para lembrar, fizemos algumas outras dezenas de promessas. Concordamos que a morte da rotina é uma necessidade para o bem-estar dos nossos dias; que eu usaria mais vezes aquele xadrez que gosta; que você, por sua vez, prenderia teu cabelo da forma que eu acho super interessante.
E lá se vão os pássaros outra vez. Pretinhos no horizonte, completando o alaranjado do céu nesse entardecer. Esses mesmos pássaros podem nos fazer companhia todos os dias, a gente que decide essas coisas. Podemos prolongar o pra sempre de tudo que acharmos importante, o agora, o daqui a pouco, até mesmo o ontem, a gente pode tudo. Temos um ao outro, temos promessas de lágrimas, união de corações, temos o grito na ausência, o não-fim do telefonema, temos tudo, temos nós, nos temos. E temos os pássaros támbém.
Vamos agora, vamos fazer tudo que queremos fazer, sem regras nem protocolos. Vamos, mas vamos juntos, prometemos andarmos sempre de mãos dadas. Sempre de mãos dadas.

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E o Dialeto Que A Gente Inventou

abril 20, 2011

O telefonema nunca termina porque a gente fica inventando apelidos novos um pro outro. Os assuntos até chegam ao fim, mas aí a gente lembra de alguma coisa e outras muitas horas saem correndo. Gosto disso.
É engraçado lembrar que no início eu não te chamava pelo nome, usava umas palavras de ligação de assuntos, era algo como “ow”, “viu”, “então”, “nossa”. E mesmo quando aprendi teu nome, já o transformei em apelido te chamando então no diminutivo, ou apenas pela primeira sílaba do teu nome. E assim as coisas estão até hoje.
É muito amor.
Cada apelido novo que te dou é um pedaço do meu coração que vai junto. A intenção em toda vez que te chamo é te trazer pra perto, pode ser pessoalmente, no olhar, ou pela voz no telefone. Mesmo quando a gente briga eu não consigo te chamar pelo nome, que raiva! rs. Mesmo as pessoas que te conhecem através de mim falando sobre a gente te chamam pelo apelido, elas escolhem o delas. 
A gente tem a mania também de dar nomes novos as coisas normais. Nem sempre um pão é um pão, ou um abraço é um abraço. Falamos por códigos, só a gente entende, só funciona com a gente e eu sinto tanta falta quandos nos afastamos e não tenho teu jeito de falar das coisas por perto.
A gente tá construindo o nosso mundo, a nossa história, e ainda não contentes, inventamos o nosso próprio dialeto. Não preciso de mais nada.
Amo tanto.

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O Show Tem Que Continuar

abril 13, 2011

Hoje a gente vai num show. Adoramos ver bandas, mas hoje vai ser diferente!
Não vai ser um show qualquer, vai ser um show comemorativo. É que hoje completamos alguns anos juntos e basicamente tudo começou no show dessa banda que assistiremos hoje, entre uma música e outra. Que saudade.
Lembro que eu estava com uns amigos e ela com umas amigas dela. Aí os meus, todos canalhas, rs, foram flertar as meninas que estavam com ela e eu, como sempre, fiquei de canto. Estranhamente, percebi que ela também ficou deslocada, ou seja, sobraram nós dois. Nossos amigos se relacionavam lá falando sobre qualquer coisa e eu me senti na obrigação de puxar algum assunto. Não lembro muito o que aconteceu depois, não lembro qual assunto puxei, não lembro de mais nada. Aliás, tenho uma rara lembrança da gente andando de mãos dadas. Entrei num mundo especial naquele dia e estou nele até hoje. O fato é que estamos indo assistir ao show da mesma banda de anos atrás, os músicos são os mesmos, o lugar é o mesmo, até os amigos que nos acompanharão são os mesmos, mas a gente mudou. Mudamos de dois deslocados daquela época pra dois transformados em um só, hoje e pra sempre. Sinto saudade daquele dia, da forma que aconteceu, de como ela me olhava e como foi receptiva a minha conversa sem fundamento. Lembrando agora, acho que falei com ela alguma coisa do tipo: “Nossa, parece que eles se conhecem há anos, né?” me referindo aos nossos amigos, aí ela respondeu com um sorriso e um aceno de sim com a cabeça. Foi o bastante. Ah, lembrei de algo legal também, lembro que desisti de ver a banda, pra mim, o show estava em uma só pessoa.

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É Pessoal

abril 11, 2011

A gente tem umas brincadeiras estranhas.
Eu gosto de Guerra de Cócegas e você de Brincar de Lutinha. Que estranho. Mas é a gente, né.
Tenho um prazer estranho de te dar sustos; ficar atrás da porta, colocar o lençol na cabeça tipo fantasma, pegar no seu pé na ponta da cama, coisas do tipo. Já você adora brincadeiras “sem-noção”: jogar sorvete na minha cara, borrifar água em mim, beslicar no susto, só coisa que machuca, rs.
Mas eu gosto desse monte de coisa, vai. É nosso jeito. E ninguém pode julgar como a gente se diverte. Somos assim quando brincamos ao mesmo tempo que rimos juntos quando nos amamos. É tudo diferente pra gente, desde o início.
Daria um lindo filme a história do casal que se conheceu numa padaria qualquer, num dia frio e chuvoso e que se falaram a primeira vez quando o atendente perguntou: “Próximo?” e os dois responderam: “Eu!”.

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Fermento à Primeira Vista

abril 9, 2011

Pegou um avental e inventou de cozinhar.
Inicialmente só fiquei observando de longe. Você e suas ideias que eu amo tanto.
Não sabia muito o que ia fazer, mas ia tentar algo, já dei valor só pela iniciativa. E nada paga o valor de te ver de avental toda charmosa. Prende o cabelo no estilo rabo de cavalo.
Busca o livro de receitas e escolhe aleatóriamente. Penso que pra sua sorte nossa despensa está abastecida!
Sabe dos meus gostos e dos meus não-gostos, mas comerei o que vier pela frente, rs.
Vendo sua aflição com os ingredientes, decido te ajudar. Na falta de outro avental, pego uma camiseta velha.
Você está na pia, me aproximo por trás anunciando minha chegada. Vira lentamente pra mim esquecendo de limpar as mãos. Fica feliz com a minha atitude e me brinda com um beijo. Tudo muito especial. Mas você ainda é você mesma, com seus esquecimentos do dia-a-dia. Enquanto fazia carinho em meu rosto esqueceu que estava com a mão cheia de farinha de trigo. Acabou me “rebocando” como dizem os mestres de obra. Mas tudo bem, só percebi quando me vi no vidro armário. Vocêm estava tão feliz e nada abalaria isso.
Quase nada.
Se não fosse você esquecer nosso primeiro bolo no forno. Temperatura alta, fofinho, embora queimado. Mas tudo bem.
Tudo bem.
A gente vai fazer tudo denovo. Não estou me importando com o resultado final e sim como vai ser o processo de criação. São tantos momentos bons com você, tantos assuntos, tão maravilhoso que fazer com que a comida dê certo é apenas um detalhe, o importante pra mim é se estou te ajudando, sendo útil e se estou perto de você.
Que os bolos queimem mais! rs.

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Coração de Giz

abril 6, 2011

Te busquei em casa e fomos pro ponto de ônibus. De lá, até o terminal rodoviário.
Preferi passar mais cedo na sua casa pra gente poder fazer um caminho mais longo. Nada além da tentativa de prolongar meus momentos com você. Mas justo dessa vez o ônibus foi mais rápido do que todos os outros dias da minha vida. Tudo bem, faz parte.
Pegamos o metrô e ficamos andando sem rumo pelas estações. Descíamos em algumas, sentávamos na plataforma para esperarmos o próximo. Aí quando ele chegava, a gente inventava uma desculpa pra poder adiar a entrada e pegar o próximo. Sempre fomos bons em criar satisfações pra algumas coisas.
Mas o adiamento também tem um fim.
Descemos na estação da rodoviária. Foi estranho chegar, a gente não falava nada direito. Eu não queria estar ali e você também não. Tinha tanta gente ao redor, barulho, e eu só pensava numa alternativa de voltarmos todo o caminho de volta. Em horas como essas queria que meu teletransoporte funcionasse além das horas dos sonhos bons.
Comemos rapidamente. Um milkshake na sobremesa causa efeito preenchedor. Caminhamos então até a plataforma. Dessa vez não existia a possibilidade de voltarmos. Você ia partir.
E seu ônibus tinha chegado. Teu horário era o da 13:20h.
Desceu o motorista acenando um “ok” autorizando a entrada dos passageiros. Tuas malas machucaram minhas mãos mas eu tinha conseguido disfarçar enquanto as esfregava em meu shorts.
Bom, era a sua hora. 

“Eu queria que levasse com você, além de sua escova de dente, todos os momentos legais desses dias. Os não-legais você está autorizada a esquecer! Obrigado por tudo sempre, denovo! Entra no msn quando chegar, estarei te esperando.”

Você não queria entrar no ônibus. Mas deveria, nós dóis sabíamos que deveria.
Eu tinha comprado uns chocolates e guardei no bolso enquanto tinha ido ao banheio, pensei que seria legal ter algo bom pra comer durante a viagem. Coloquei discreta e cuidadosamente em sua mala, seria a última surpresa.
Depois do abraço mais mais longo da minha vida, nos afastamos. Você estava linda, indo embora, mas ainda assim linda. Fazia calor, estava de shorts, sempre te amei de shorts.
Demos passos para trás lentamente. Colocou a primeira perna no degrau do ônibus e me olhou. Acenou com a mão, escondeu o cabelo atrás da orelha e entrou definitivamente. Você se foi.
Odeio despedidas. Odeio te ver indo embora. Eu não me suportava por dentro mas tinha que parecer forte pra você. Eu tinha que ser base e não fraqueza. Acenei me despedindo e saí correndo subindo as escadas da rodoviária.
Eu não queria estender aquele momento.
Eu tinha que ir embora e me ocupar com alguma coisa até que o relógio apostasse corrida com o coração pra decidir quem chegaria vivo no próximo fim de semana. Combinamos de eu te buscar na rodoviária às 7h.

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Obrigado Pela Parte Que Me Toca

abril 3, 2011

Duas voltas do cachecol no pescoço, um botão a mais no casaco e pronto, você está pronta pra encarar esse frio implacável.
Gosto de te ajudar a se arrumar. Gosto de te ajudar a fazer tudo que gosta. Gosto de gostar de você.
Entre tantas as opções você escolhe o perfume que eu mais gosto, e olha que nem te influenciei nessa decisão, é que você me conhece.
Decidimos ir a padaria. Saímos dançando pelas ruas. Você adora brincar de corrida, mas se esquece que eu sempre ganho, boba. Insiste em correr e eu te persigo, então a gente cai juntos no calçada. Sorte nossa os agasalhos servirem de proteção.
Começamos a rir desenfreadamente. Que bobagem! Como somos bestas! Imagino a cara das pessoas que passam de carro vendo um casal de bobos rindo deitados no chão! Aí você pega uma folha seca no teu lado, coloca em meu ouvido tentando me provocar cócegas. Na intenção de revidar me viro em cima de você e imobilizo seus braços. Você usava gorro. Fazia bem frio mesmo. Te ataco com as mãos nas axilas, você não suporta meu ataque de cócegas!
E me abraça suplicando com os olhos.
Aí eu desisto.
Me rendo, abaixo e nos abraçamos. E eu quero continuar ali. Tua respiração ofegante de tanta brincadeira se manifesta em meu pescoço. Se pudesse ver meu corpo por debaixo de tanta roupa veria como fico arrepiado. Um beijo tímido aqui e outro ali. Sem palavras. O som do vento era música naquele momento. Em silêncio e de olhos fechados, penso que a nossa história peculiar recheada de momentos em lugares inusitados ganha então um novo espisódio. Nunca pensei deitar na calçada com alguém. Mas na verdade, nunca pensei em viver com alguém tudo que vivo com você. E quando eu digo “tudo” é o mínimo mesmo, não falo de viagens extraordinárias, falo de abraços extraordinários e de formas singulares de ver tudo que acontece nessa vida.
Volto pra realidade, folgo um pouco teu cachecol, você está quase suando. Me agradece com a mão em meu rosto. Até ensaio falar alguma coisa, mas nenhuma palavras me diz “oi”. Sou vencido pelo silêncio e pelo seu toque.

Cai uma folha sobre nós.

Não reparamos que estávamos debaixo de uma árvore que o Outono fez questão de nos apresentar hoje. Tudo tem sua hora e nada é por acaso. Quem diria aqui deitados na calçada.
Decidimos ir embora. Ainda tínhamos que ir a padaria pra tomarmos chocolate quente.
Voltando pra casa, passamos pela mesma árvore, dessa vez de pé.
Escrevemos nossos nomes na folha que caiu sobre nós e decidimos devolvê-la enroscando-a em algum galho no alto.
Criamos então, o mais novo motivo pra passarmos toda vez por aquela árvore. Nossa árvore de outono.

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Metrô Romance

março 31, 2011

A gente marcou às 15:30.
Acordei às 11h e quando era 13h eu já estava saindo de casa. Quanta ansiedade.
Comprei um perfume novo (espero que goste), coloquei a camiseta que me deu, limpei meu tênis e saí de casa.
Peguei o ônibus e torci para ele ir o mais devagar possível. Eu estava super adiantado, ia esperar tanto. Quando eu quero que ele atrase e fure um pneu, como quando estamos voltando pra casa, não acontece nada. Que injustiça!
Sentei na janela e já fazia bastante Sol. Na verdade, praticamente fritei no Sol, mas tudo bem.
Cheguei no metrô.
O combinado era te encontrar na plataforma às 15:30. Você não mora longe, certamente ia chegar no horário, mas eu sou super ansioso, quero antecipar os momentos, quero viver o “daqui a pouco” AGORA. Que mania!
O fato foi que eu cheguei 13:40 na combinada plataforma. Ou seja, eu ia esperar mais uma hora e meia até a sua chegada. Isso se você não se atrasar, sei lá né, essas coisas acontecem. Murphy vive!
O que se tem pra fazer numa plataforma de metrô? Nada! Absolutamente nada! E foi isso que eu fiz: NADA! Cantei mil CDS inteiros, tentava compor algumas músicas pra encaixar alguma coisa no meu violão surrado quando eu voltar pra casa. E o tempo se rastejava.
O relógio marcou 15hs. Comecei a ficar mais nervoso. As mãos começaram a suar mais que o normal - como se isso fosse possível – eu nem sabia mais se estava com o cheiro do perfume. E aquele vento dos vagões desmachava todo o meu cabelo artificialmente já desmanchado por mim. Percebi em como assistir as pessoas andando é uma coisa doida. Um monte de gente indo de um lado pra outro, mil vidas.
Me chamou a atenção os casais dentro dos vagões. Quase que em todos os casos a menina sentava na janela e o menino a circulava com o braço sobre os ombros dela. As meninas pareciam se sentir seguras. Lá pelas tantas observando as pessoas, um casal em particular se destacou. Eles carregavam compras, pareciam cansados. Cansados sim e felizes também.
Que bonito era vê-los. Ela repousava os óculos escuro na cabeça exercendo também a função de segurar os cabelos numa espécie de tiara. Ele estava com uma mão sobre a perna dela e a outra ao redor – como já disse – e eu só conseguia ver o brilho da aliança. Fiquei pensando sobre quanto tempo eles estão juntos, como começou, como eles resolvem as brigas, como eles são no dia dia. Curiosidade feliz, sabe? Entrei na torcida pessoal de que eles sejam muito mais felizes do que pareciam ser! Combinavam tanto!
Na próxima composião de trens você chegou.
O portão do vagão parecia um portal do céu. Você veio com luz te empurrando. Passos curtos, já me deu um sorriso a distância. Aquela hora eu já estava de pé. Ora, fiquei mais de uma hora e meia te esperando né. Não há nádega que resista sentado!
Estranhei, você veio feia. Ok, rs, mentira, você veio linda, sempre é. Combinava o sapato/sapatilha/não sei o nome ao certo, com a bolsa.  Usava uma blusinha com listras (amo listras!). Notei seu colar novo.
Nos abraçamos e você permaneceu um pouco a mais no meu pescoço me perguntando se eu estava com perfume novo. Adorei a pergunta! Respondi positivamente, peguei em sua mão e caminhamos rumo a escada.
Olhei para trás. Pensei rapidamente sobre quão mágico foi ficar ali e assistir as pessoas. Lembrei do casal feliz. Lembrei também do meu desejo para que eles sejam eternamente felizes, que mais dias de compras possam vir, que mais metrôs possam pegar – vejo romance no metrô. Mas eu só vou torcer pra uma alteração nessa vida feliz do casal: Vou torcer para que aliança mude da cor prata para a dourada.

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Eu Te Vi e Você Nem Percebeu

março 27, 2011

Ontem eu sentei na sua calçada.
Não faço a mínima ideia do que você fazia uma hora daquelas. Fiquei lá por um bom tempo. Assisti as pessoas na rua, senhoras com os cachorros, o trânsito, o semáforo. Fazia frio. Mas eu estava bem ali.
Na verdade eu não sei muito bem porque eu estava lá, mas me fazia bem, então continuei.
Corri até a padaria próxima, comprei algumas carolinas, um suco de latinha e voltei pra porta da sua casa.
Até que eu estava bem visível, mas pra quem via parecia que eu tinha tocado a campanhia e estava esperando alguém sair da sua casa e abrir. Quem dera, bem que eu queria isso.
O frio apertou. As carolinas acabaram. A latinha esvaziou.
Comecei a mexer no celular. Típico de uma pessoa sozinha que não tem o que fazer, sabe? Fiquei relendo mensagens e algumas que tinham ali eram suas. Comecei a fuçar mais ainda no celular, que nem é tão morderno assim, mas encontrei algumas fotos suas sem querer. Fotos de meses atrás, fotos de quando você me pedia pra registar um sorriso teu. Cheia de pose, rs.
Cansei do celular e comecei e ouvir músicas no viva voz. Ahh, mas eu não sou escandaloso, não ouvia alto!
Aí eu cansei das músicas também. Pensei em como seria bom poder te ver. Eu estava ali tão perto de você que nunca faria ideia do quanto.
Fui perto da campanhia e forcei umas poses. Ensaiei falas: “Oi, com licença, pizzaria!” Mas não sei seria uma boa ideia, ora, não tinha como adivinhar que você tinha pedido pizza. Lembrei da sua fominha que aparece aquela hora.
Me distanciei da calçada na tentiva de simular com a maior perfeição possível algum assunto pra falar com você no interfone.
E as horas foram passando.
Foi então que tive a ideia genial (?) de subir em uma árvore. Escolhi uma especial o mais perto possível do seu quarto, me preparei e comecei a escalada. Que fracasso, mal subo numa bicicleta o que dirá numa árvore. Eu não estava nem aí, queria tentar!
Com muita dificuldade consegui subir e pra minha surpresa consegui ver sua janela.
Consegui ver sua janela.
Consegui ver sua janela.
Consegui ver sua janela.
Naquela hora o miserável do meu celular vibrou e eu quase caí. Maldita mensagem da operadora me lembrando pra recarregá-lo.
Me acomodei aos poucos até me estabilizar.
E aí.
E aí.
Eu te vi e você nem percebeu.
Pela fresta da cortina comecei a te observar. A partir daquele momento não tinha vento que me derrubasse, não tinha força que me fizesse sair dali. Eu só queria te ver mais tempo.
Vi que assistia aquele programa de vídeo-clipes. Cantava as músicas com a TV. Usava a blusinha dos ursinhos nas nuvens.
Foi até a cozinha, preparou algo pra comer e de repente o interfone tocou.
Era um motoboy de pizzaria. Mas raios, como que não ouvi o barulho da moto? Me indignei e só depois reparei que ele havia estacionado bem longe sei lá porque.
“Boa noite, é da pizzaria” anunciou o motoboy, não era a mesma frase mas era uma muito parecida com a que eu havia treinado horas atrás. Teu pai foi buscar no portão.
Vi que desistiu do lanche que havia preparado e aproveitou pra comer a pizza. Concluí que ainda sei dos teus horários e gostos.
Depois de comer, fui para o computador. Você adora vídeos curisosos da internet, conversar com os amigos, mexer em suas fotos.
Me dei conta do tempo que estava lá e percebi que eu já estava bem cansado. Você havia se deitado, a madrugada já havia chegado e o frio tinha apertado ainda mais. Mas eu não queria ir embora. Eu queria te ver.
E então você adormeceu. A janela já estava fechada, mas percebi pelos feixos de luz que a TV estava num fora do ar. Era o sinal. Provavelmente você estava dormindo em cima do controle remoto. Como sempre.
Fiquei feliz por ter ver anoitecer.
Repleto de ematomas, desci da árvore. Encontrei uma sacola plástica na rua, recolhi o saquinho das carolinas, a latinha de suco, joguei na lixeira. E fui embora.
Já não havia ônibus e eu não tinha dinheiro pro táxi.
Fui pra casa caminhando. Transformei 30 minutos em 3 horas.
Mas não tem problema pra quem esperou mais de 20 anos pra encontrar alguém assim como você.

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